sábado, 7 de junho de 2014

O inimigo íntimo

Cuidado... não vá cutucar o Dragão ou o Urso!



por Andre Vltcheck

Traduzido por mberublue – Coletivo de tradutores Vila Vudu


Não é prudente nem seguro enfiar uma barra de ferro em brasa na boca de um dragão. Digam o que disserem no ocidente sobre dragões, aqui na Ásia, o dragão é venerado como a maior lenda da terra e do céu. Paciente e sensato, ele quase nunca usa a força em primeiro lugar. Mas se desrespeitado ou agredido, o dragão é muito capaz para revidar de forma perigosa, mortal, determinada e forte.

Aterrorizar um urso que está dormindo também é uma maneira muito estúpida de agir. É evidente que se você desce até a caverna de um urso que está hibernando e começa e lhe cutucar a cabeça, não deve esperar nada de bom quando ele acordar.

Ocorre que aparentemente, a obsessão dos que comandam atualmente o império não é a prudência. Mesmo envolvidos sem parar em pequenos conflitos por todo o globo terrestre, parece que se cansaram disso. A Líbia não foi o bastante e não foi suficiente o Congo. Eles querem alguma coisa grande, mas grande de verdade; que seja ainda maior do que já tenham conseguido anteriormente há algumas décadas, como a destruição da Indochina inteira ou a ruína da Indonésia.

O império quer uma luta mortal com um adversário poderoso que valha a pena.

O que quer é cobrir o mundo inteiro com cadáveres insepultos, em vez de ajudar a construir um mundo pacífico decente. Se puder fazer isso desta vez como fez há setenta anos, dezenas de milhões de pessoas, talvez muito mais, desaparecerão. Mais uma vez, teria que ser novamente um urso e um dragão a bater de frente com o fascismo e lutar pela sobrevivência do mundo.

Os uivos insanos da divulgação manipulada de fatos e ideias antirrrusa e antichinesa vêm atingindo um nível ensurdecedor, especialmente na Ásia. Os meios de comunicação ocidentais estão espalhando essa malversação, de maneira ostensiva, tanto através de seus próprios veículos como também através de suas afiliadas nos Estados que as hospedam e que são, na sua maioria, propriedade de grandes empresas.

Agora, a Rússia e a China estão sendo vilipendiadas, insultadas abertamente e responsabilizadas pelo aumento das tensões na região da Ásia e do Pacífico e ainda pela escalada militarista. Toda a máquina de divulgação do ocidente está agora trabalhando para demonizar a China, a Rússia e qualquer outro país independente que considera oponente.

O ocidente está levando o mundo para a guerra, o que causa todas essas consequências. Seria necessária muita disciplina e muito esforço para não ver isso. Na frente das câmeras de televisão, desfilam políticos, um após o outro, jurando fidelidade ao capitalismo, ao modo de vida ocidental, ao regime ou simplesmente ao império. Todos esses inflamados e depreciativos discursos contra os que consideram “inimigos” são vergonhosos e transparentes, mas ninguém ri, nem na América do Norte nem na Europa, pois estão se tornando uma norma.

Isso pode levar a uma guerra mundial, alertam muitos, ao afirmar que o ocidente perdeu completamente o controle, que está pronto a promover um banho de sangue planetário, mais uma vez. Há um quarto de século, as aparências indicavam que, com a quebra do bloco do leste europeu e com a China aparentemente seguindo um curso cada vez mais capitalista, o ocidente teria conseguido finalmente aquilo pelo qual tinha lutado durante séculos: total e absoluto controle do planeta inteiro.

Mas, recentemente, alguma coisa deu errado nos planos ocidentais. A América Latina cresceu e a maior parte dela libertou-se, abandonando a Doutrina Monroe. A China começou a implantar reformas socialistas nos serviços médicos, culturais, educacionais e em muitas outras esferas. Já a Rússia, não se deixou intimidar ou humilhar, lembrando tanto à Europa quanto aos EUA que ainda é forte como sempre foi e não será pisada e humilhada como aconteceu antes nos governos de Gorbachev e Yeltsin.

Irã e Coréia do Norte (ambos países que jamais atacaram a quem quer que seja na história moderna) perceberam que a única maneira de não ser reduzido a pó e sobreviver é ter e desenvolver sua própria capacidade nuclear. Assim, todas essas nações e são várias na América Latina, além de China, Rússia e Irã, decidiram juntar forças e dizer: “nunca mais”. Nunca mais permitir que o mundo desça ao horror representado pelo colonialismo ocidental.

O sonho dourado do ocidente de um mundo sem regras e sem oposição está começando a desvanescer no ar. Será que o ocidente se arriscará a destruir o planeta, apenas por que não pode ser dele o único dono?

Em 31 de maio de 2014, a agência de notícias Canadian CBC News relata que “Stephen Harper atacou Vladimir Putin e o ‘mal’ do comunismo”, referindo-se ao  “longo discurso inaugural” que o Primeiro Ministro canadense de direita proferiu em evento de angariação de fundos em Toronto. A linguagem do discurso “lembra o auge da Guerra Fria.”

O presidente dos Estados Unidos, de longe o país mais agressivo na Terra, grotescamente prometeu “parar a agressão” da Rússia e da China, dois países que não invadiram nenhum outro país nas últimas décadas.

Em um discurso cuidadosamente pensado para provocar a China, o Secretário da Defesa dos Estados Unidos, Chuck Hagel, falou mais como um delinquente que como um político: “os Estados Unidos não vão olhar para o lado quando princípios fundamentais da ordem internacional estão sendo desafiados.”

Alguém poderia perguntar: Que ordem, afinal? Será que ele está falando da ordem imposta através do mundo por Washington e as capitais européias, por séculos, à custa de centenas de milhões de vidas humanas? Bela ordem!

Um advogado perito em Direito Penal Internacional, Christopher Black, com escritório em Toronto, fornece uma análise desse relato:

“O discurso do presidente Barak Obama na academia militar de West Point, que teve como fulcro a política americana que seria destinada a conter a “agressão” de Rússia e China, foi imediatamente seguido pelo Secretário da Defesa Hagel em Singapura, no qual acusou a China de desestabilização na região do Mar do Sul da China e foi acertadamente caracterizado pelo Tenente General Wang GuanZhong como “ameaças e intimidações”, mas expressa a clara intenção dos Estados Unidos de levar a guerra contra os dois países poderosos que atrevidamente estão se desenvolvendo independentemente do domínio norte americano.”

Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos têm atacado a China em várias ocasiões, primeiro na Guerra da Coréia ao que se seguiram décadas de tentativas de sabotagem e isolamento, culminando com o bombardeio da embaixada chinesa pela OTAN em Belgrado, que aconteceu em 1999. Atualmente a pressão continua através da tentativa de desestabilizar a China por dentro, através de vários mecanismos de infiltração de grupos de “direitos humanos” na sociedade chinesa e mesmo no contexto dos mecanismos administrativos e no exército chineses e de uma propaganda política constante a fim de  difamar a China e seu povo ao redor do mundo. O impulso desta estratégia foi recentemente incrementada como os recentes ataques de grupos fanáticos muçulmanos do oeste da China contra cidadãos chineses nas principais cidades e centros de transporte. Além disso houve ataques provocadores aos interesses chineses no Vietnã, na Tailândia, nas Filipinas e na África, finalizando com a recente e absurda acusação contra oficiais militares chineses por supostos ciberataques.

Eventos recentes na Ucrânia mostram o ritmo acelerado e agressivo das tentativas de cercar completamente a Rússia e a China pelo avanço da OTAN às fronteiras russas e ao reposicionar cerca de 60% dos ativos militares dos Estados Unidos no Pacífico.

Não há nada de novo sob o Sol. Agora os agressores estão a culpar as vítimas pelo “agressão”. A Alemanha nazista e seus propagandistas usaram a mesma “lógica” e os mesmos “argumentos” antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Os franceses também usaram a mesma técnica nma Argéliam e em outras colônias, da mesma forma que os britânicos em todos os seus “protetorados”.

Na Ásia, a imprensa é servil e zelosa de sua vassalagem a tal nível que muitas vezes supera as ordens recebidas de seus amos ocidentais, manipulando as notícias ainda mais que aqueles.

O jornal The Star Filipinas, em 25 de maio de 2014 começou a agredir a China, desta vez citando as palavras do Almirante William Locklear III, o comandante das forças norte americanas no pacífico de que “a Rússia faz seu próprio pivot para a Ásia”. Então o jornal finalmente produziu algumas peças brilhantes de análises: “Fontes oficiais disseram que a incursão russa na Ucrânia tem preocupado Washington no sentido de que a China pode tentar algo semelhante, a guisa de proteção aos seus cidadãos no exterior.”

 Como assim “incursão russa na Ucrânia”? Isso soa muito mais como propaganda política manipulada publicada todo santo dia nas páginas da imprensa diária ocidental, nos EUA e a Europa. Depois de quinze anos trabalhando na região, sou obrigado a testemunhar que depois de interagir com centenas de pessoas da mídia do sudeste asiático, que esse modo de pensar como descrito acima jamais poderia partir de um jornalista local. O conhecimento sobre a Europa ocidental aqui beira ao zero absoluto. Acrescente-se que depois de uma lavagem cerebral em Londres, Nova Iorque e outros locais, os jornalistas locais não se comparam. Alguém escreveu essa afirmação. Quem foi? Nós todos sabemos. Vem da mesma fonte, que manda trolls atacando todos os meus relatos enviados para Rádio Transmissão.

Toda a imprensa filipina em geral, acabou por chegar à conclusão de que os Estados Unidos não tem outra coisa a fazer a não ser expandir-se militarmente por causa dos “agressivos movimentos chineses.” Quase todos os jornais mencionam o alto custo suportado permanentemente pelos EUA com suas bases militares na região, ao mesmo tempo argumentando que as bases “eixos” dos países locais, mas que podem ser abertas para o uso das forças dos EAU são o caminho certo a seguir. Tais bases também se localizam nos territórios da Austrália e do Japão e possivelmente em Cingapura e na Tailândia, assim como na Malásia.

Com certeza agora a Tailândia já está “segura”, depois que o exército matou milhões de pessoas na região por conta do ocidente, derrubando o governo progressista e democraticamente eleito e assumindo o controle do país. Bem oportuno esse golpe, não é?

Mas isso ainda não é o bastante. Não basta ter várias bases na África, no Oriente Médio, no Japão, na Oceania e em alguns estados vassalos que sobraram na América Latina. Ocorre que todos estes estão longe dos alvos prioritários... Rússia e China.

A mídia tradicional das Filipinas não se preocupa sequer em questionar por pouco que seja, a integridade de um acordo militar nestes termos, que está em violação direta da constituição da nação. Acontece que os jornalistas do sudeste asiático não são pagos e levados para treinar no exterior pela moralidade. São pagos para escrever o que a elite e os patrões do estrangeiro a quem obedecem lhes mandam escrever.

Eduardo Tadem, professor de estudos asiáticos da Universidade das Filipinas, durante uma recente conversa em Manila, nos explicou:

“O acordo recentemente assinado entre as Filipinas e os Estados Unidos, é chamado de EDCA (Economic Defense Cooperation Agreement – Acordo Econômico de Cooperação para a Defesa). Através deste acordo, o governo das Filipinas oferece total acesso a virtualmente todas as bases militares das Filipinas aos soldados dos Estados Unidos por um período de dez anos. Mas na realidade, ninguém sabe por quanto tempo... A situação é muito perigosa, tendo em vista que todas as instalações militares das Filipinas já estão agora abertas para a “entrada” das forças dos Estados Unidos. Com certeza isso vai contra as determinações da Constituição Filipina, que barra o estabelecimento de qualquer força estrangeira dentro de nosso território.”

Mas o que aconteceu na realidade? Por que tão repentina mudança?

“Tem a ver com certos fatores. Um deles, é claro, é o fator do assim chamado ‘pivot’ dos Estados Unidos para a Ásia. Sob o regime Obama, existe uma estratégia de ‘pivoteamento para a Ásia’. Segundo, há também a proposta do acordo chamado parceria Trans-Pacífico dos Estados Unidos; o qual visa a construção e a integração de uma espécie de mercado na região da Ásia e do Pacífico. Ocorre que a Tailândia ainda não é parte desta parceria... Por fim, o terceiro item tem a ver com as disputas territoriais que têm lugar na região, tanto no Mar do Sul da China e no Mar do Norte da China.”

China.

“Trata-se também de uma questão de nacionalismo, somado ao fato de que aqui eles estavam sempre pedindo por mais assistência, inclusive militar. A maneira de conseguir essa ajuda é esta. Lembre-se também que o presidente das Filipinas é constantemente apoiado pelos Estados Unidos. Provavelmente você viu um levantamento que mostra que a população da Filipina ama os Estados Unidos mais que os próprios americanos do norte. Assim, para os americanos foi fácil conseguir aqui o apoio para a sua política para a China.”

genocídio nas Filipinas
Perguntei para Teresa Tadem, professora de Ciência Política da Universidade das Filipinas assim como ao professor Eduardo Tadem, como pode ser possível que um país, as Filipinas, que sofreram de forma severa a ocupação pelos Estados Unidos durante a era colonial, quando aconteceram violações dos direitos humanos, massacres... Como pode ter sentimentos tão positivos em relação ao seu antigo e brutal colonizador?

“Tem a ver com o uso de forma intensa da máquina de propaganda política americana, que mostra a era colonial como tendo sido uma época de colonialismo tipicamente benevolente. As atrocidades cometidas durante a guerra das Filipinas contra os americanos em 1898-1901, quando vimos um milhão de filipinos sendo massacrados, o que compunha então cerca de dez por cento da população, desaparecerem lentamente da consciência das pessoas... o genocídio, as torturas... as Filipinas eram conhecidas como “o primeiro Vietnã”... tudo isso tem sido esquecido convenientemente e escondido nos livros de história. Além disso, somos bombardeados com as histórias de Hollywood e a imagem que mostram dos EUA...

O quanto é perigoso antagonizar a China e mesmo a Rússia? Durante séculos, a China tem sido um país realmente pacífico, e ainda o é em nossos dias. Muitos filipinos vieram da China, que é um aliado histórico natural... enquanto o ocidente está bombardeando, liquidando e destruindo países, derrubando governos, a China tira uma plataforma de extração de petróleo de águas disputadas e dispara canhões de água contra alguns navios e é imediatamente chamada de agressora.

Tudo se resume, mais uma vez, à propaganda política manipulada. “A China é retratada como comunista, e por estas bandas sempre se atribuiu uma conotação negativa a essa palavra”, disse a professora Teresa Tadem.

“O país mais perigoso da Terra atualmente, é para mim, os Estados Unidos”, continuou Eduardo Tadem. “ele sempre foi o mais agressivo... intervindo em muitos países ao redor do mundo, a milhares de quilômetros de sua costa, para tentar impor no planeta sua visão de um sistema global capitalista. Então, se você precisar o que a China está fazendo nos arredores de seu território e comparar com o que os Estados Unidos fazem no mundo inteiro em várias partes do mundo, em todos os continentes... daí você verá claramente a disparidade na imagem que se está criando, impingindo à China a figura de uma ameaça à paz no mundo.”

Os dois professores expressam assim a sua profunda preocupação sobre o fato de que a propaganda política do ocidente está disparando uma sinofobia entre os filipinos e em outros povos asiáticos. Apontam então que o que os EUA estão na realidade fazendo é plantar a ideia de ultra nacionalismo, que facilmente se transforma em fascismo. Coisa, de acordo com eles, muito perigosa – plantar sementes de sinofobia em todo o continente asiático.

“Podemos chegar a um ponto de não retorno”, explica Eduardo Tadem. “Meu medo é de que seja exatamente isso o que está acontecendo neste mesmo instante nas Filipinas, bem como em outras partes da Ásia, onde disputas territoriais têm acontecido.”

Lógico que a sinofobia sozinha não levará à destruição do mundo, mas também é certo que pode fazer parte desse acontecimento, definitivamente. Os mestres ocidentais de propaganda política manipulada estão plantando o ódio contra a Rússia como se pode ver claramente no seu programa como um todo. Os irracionais discursos anti Rússia disparados por Stephen Harper, do Canadá, bem como de políticos da Polônia e do Báltico parecem levar a um resultado assustador: a fabricação artificial de uma espécie de racismo contra aquelas nações que se colocam no caminho dos Estados Unidos e da Europa em seus planos de dominação mundial.

Desumanizar o “inimigo”, insuflando sentimentos racistas e pejorativos em relação a eles é o primeiro passo da “arte” ocidental da guerra, o primeiro passo que pode levar a um confronto total.

Como o mais provável é que o que está sendo planejado é algo horrível, devemos ou não questionar seriamente? Temos que exigir saber o que se passa.

As pessoas começam a questionar. Geoffrey Gunn, proeminente historiador australiano e professor emérito da Universidade de Nagasaki no Japão, me escreveu, com este relato:

“Em grandes manchetes, a mídia internacional chama a China de “grande ameaça!”. Mas afinal, quem é que provoca? Observamos o primeiro ministro japonês em Singapura (30 de maio) se oferecendo para liderar uma coalizão internacional para verificar a extensão da “agressão” chinesa, prestativamente oferecendo navios de guerra “de qualidade” para países interessados como Filipinas e Vietnã. Isso pode ser considerado uma loucura quando vem de uma nação sem constrição oficial, que pensa em se desfazer de seu salvo-conduto, a “Constituição da Paz”. Enquanto isso, o governo neocon da Austrália se excede na retórica de alinhamento subserviente, tecendo armadilhas junto com o Secretário da Defesa dos Estados Unidos, ao oferecer seu próprio “pivot” para o Mar do Sul da China. Quero mais é ver os nacionalismos asiáticos (China, Vietnã, Japão, Coreias) resolver por si mesmos os próprios problemas diplomaticamente – afinal o império do meio está no mesmo lugar há milênios – deixar de lado os forasteiros, obrigar os militares a olhar com cuidado onde pisam e deixar a China crescer em paz.”

Do Vietnã, triste com a nova onda de hostilidades entre dois vizinhos comunistas, Vietnã e China, um renomado artista ocidental que não quis se identificar, explicou a situação:

“Tenho certeza de que o ocidente está encantado com o rumo que tomam os acontecimentos e fará o possível para aumentar ainda mais a fissura entre a China e o Vietnã. Claro que vem a calhar para o pivô para a Ásia e outras agendas ruins da OTAN e dos Estados Unidos. Os vietnamitas apenas estão irritados com a posição de força tomada pela China e não se pode questioná-los por isso. O primeiro ministro do Vietnã tem enviado mensagens de texto pela rede móvel alertando as pessoas para não darem ouvidos a “bandidos” e protestarem apenas dentro da lei nacional e internacional...”

É surpreendente o quão encorajado e seguro está se tornando o Vietnã, considerando-se que está fazendo atualmente o mesmo que a China: perfurando poços em área disputada.

Muitas pessoas crêem que as tensões entre China e Vietnã remontam à época da expedição punitiva chinesa contra o Vietnã (que em seguida entrou no Camboja e depôs o Khmer Vermelho) conhecida como a Guerra Sino-Vietnamita de 1979. É quase nonsense observar como o Vietnã é dura com relação à China e como se reconciliou facilmente com os Estados Unidos.
Cerca de 10.000 civis vietnamitas perderam a vida durante a guerra sino-vietnamita – um número nada insignificante, definitivamente. Mas não tem nem termos de comparação com os milhões de cidadãos do Vietnã que foram massacrados na “Guerra Americana” (ou “Guerra do Vietnã” como é conhecida no ocidente). No transcorrer da Guerra Americana, cidades inteiras foram reduzidas aos alicerces, campos foram envenenados, as mulheres foram estupradas e as pessoas de um modo geral foram queimadas pelo napalm e outros produtos químicos.

Assim como no caso das Filipinas, a crescente propaganda política do ocidente apagou lentamente os horrores da mente das pessoas. Passei três anos em Hanói. Ostentando a cidadania americana, nunca foi hostilizado, sempre fui tratado com respeito e jamais ouvi um insulto. Contrastando com isso, as empresas chinesas atualmente são atacadas e queimadas, enquanto grassa a perseguição aos cidadãos chineses, com espancamentos e casos de assassinatos (cidadãos do interior da China, mas também de Taiwan e outros lugares).

Enquanto isso, a RT relatou:

“Ao visitar Washington, o general Fang Fenghui também culpou o “pivot” da administração Obama para a Ásia como a razão do aumento das tensões na região. Disse que algumas nações asiáticas usam essa mudança de estratégia para fomentar a discórdia nos mares do Sul e do Leste da China.”

***

Estaríamos sendo arrastados para um confronto final, para uma possível Terceira Guerra Mundial? Infelizmente, se levarmos em consideração as observações a partir da Ásia e do Pacífico, parece que sim, de forma bem clara.

Christopher Black não tem nenhuma dúvida de que antagonizar, provocar e insultar países poderosos e independentes como a Rússia e a China pode ser o próximo passo para a destruição total da raça humana na Terra:

“Todas essas ações são preparação para a guerra. De fato, o posicionamento de baterias de mísseis antibalísticos na Europa Oriental é uma preparação para um primeiro ataque nuclear da Rússia. A implantação dessas baterias tem o único propósito de tentar interceptar um ataque retaliatório pelas forças nucleares russas depois de um primeiro ataque dos Estados Unidos. Não há outro propósito ou finalidade. Estas preliminares para uma guerra de agressão, na realidade uma guerra nuclear, são uma clara violação da Carta das Nações Unidas e das leis internacionais e pode ser caracterizada como um crime de guerra. Mas, desde que os Estados Unidos jamais respeitaram qualquer lei internacional ou norma civilizada de comportamento, podemos esperar que estas preliminares para a guerra nuclear continuarão.

A humanidade espera impotente, à beira da aniquilação por nenhuma outra razão a não ser a busca dos Estados Unidos por lucro ilimitado. São os fundamentalistas e extremistas do sistema do capital. Enquanto isso, devemos ter esperança apenas na hábil diplomacia que estamos vendo ser empregada pela Rússia e Pela China, o incremento do ritmo de sua cooperação bilateral com outros países e seus esforços para alcançar a cooperação multilateral do mundo inteiro a partir da América Latina, para a África, Europa e Ásia, que deverá mudar a dinâmica do poder mundial, pelo menos o suficiente para impedir que os norteamericanos e seus aliados possam alcançar seus objetivos, o que faria os povos do mundo ter uma chance de viver em paz e empregar suas energias não em guerras, mas na solução de tantos problemas urgentes enfrentados pela humanidade.”


André Vltchek é romancista, cineasta e jornalista investigativo. Cobriu guerras e conflitos em dezenas de países. Breve será impressa em livro a sua discussão com Noam Chomsky sobre o terrorismo ocidental. Seu famoso livro Ponto sem Retorno está atualmente reeditado e disponível. Sobre o imperialismo ocidental no Pacífico Sul, escreveu o livro Oceania. Acaba de concluir um documentário intitulado Ruanda Gambit sobre a história de Ruanda e a pilhagem da República do Congo. Reside atualmente no leste da Ásia e na África, depois de viver por muitos anos na Oceania e na América Latina.

Tradução: mberublue