domingo, 29 de novembro de 2015

O 'ocidente' nunca atacará o ISIS onde mais dói 

        
 Resultado de imagem para New Eastern Outlook
24/11/2015, Tony Cartalucci, New Eastern Outlook         
Tradução pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu                                                    


Logo no dia seguinte dos ataques em Paris, o 'ocidente' tentou alavancar o que esperava que viesse a ser um renovado clamor público por mais e mais guerra longe de casa. Com esse objetivo, EUA e Turquia anunciaram uma operação que visaria a 'securitizar' os últimos 98 km da fronteira turco-síria – área compreendida entre a margem esquerda do rio Eufrates perto de Jarabulus, até Afrin e Ad Dana mais para oeste.


É a "Zona Segura" da OTAN de 2012, em neoembalagem


Os que acompanham o conflito sírio logo verão que esse trecho da fronteira turco-síria é precisamente a área daquela tão buscada e ansiada "zona segura" que EUA, OTAN e o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) tentam estabelecer desde 2012. Os ataques em Paris e vários incidentes de fronteiras menores, noticiados recentemente, parecem ser apenas a mais nova série de provocações que o tal 'eixo' tenta, para implementar aquele plano já concebido há anos.


Essa região entre Jarabulus e Afrin constitui o corredor primário pelo qual o grupo constituído da Frente Al-Nusra da Al-Qaeda e o chamado 'Estado Islâmico' ou ISIS, recebe armas, suprimentos e combatentes recém recrutados. Mediante esforços coordenados entre os curdos sírios e o governo do presidente Bashar al-Assad, todo o restante da fronteira já está selado. À medida que esse processo avançou, avançou correspondentemente o desespero do eixo 'ocidental' para derrubar o governo de Damasco.


Aproxima-se o fim do jogo 


Na realidade, independente das tolices repetidas que o 'ocidente' 'declara' sobre sua determinação para "combater contra o ISIS," as suas ações e as ações de seus aliados regionais já mostraram e demonstraram sobejamente que o único interesse 'ocidental' real é preservar o grupo terrorista. 


Mas a falsa guerra que o 'ocidente' diz que combate contra o ISIS ajudou a abrir a porta para a recente intervenção militar dos russos. Com a entrada da Rússia naquela guerra, o 'ocidente' já não pode persistir em suas inexistentes operações contra o ISIS enquanto espera por uma chance para finalmente dividir e destruir a Síria.


A Rússia e o Exército Árabe Sírio, ao qual os russos garantem apoio aéreo, já praticamente selaram, eles mesmos, o corredor Jarabulus-Afrin. De fato, uma semana antes dos ataques em Paris, tropas sírias abriram um corredor até a base aérea Kweires, que até então estivera cercada, a apenas 40 quilômetros do rio Eufrates. Desde então, as forças sírias expandiram o controle sobre a área circundante. 


Tão logo alcance o Eufrates e retome o controle sobre Aleppo, e avance para o oeste, a partir de Latakia no nordeste, a Síria terá preenchido todo o vazio onde a OTAN tanto sonhava, há tanto tempo, estabelecer sua tal "zona segura".


Em outras palavras, há uma corrida entre (i) a OTAN (que quer fixar uma ocupação parcial do território sírio) e (ii) a Síria e seus aliados que lutam para preencher aquele vazio antes de que a OTAN consiga instalar-se ali. – Agora, essa corrida aproxima-se do fim.


A pergunta não perguntada (vide mapa)


Os ataques em Paris aconteceram segundo timing preciso: à véspera das conversações de Viena e exatamente quando Síria e aliados aproximam-se da tal "zona segura" de que a OTAN precisa tão desesperadamente.


Os ataques deram ao 'ocidente' mão forte para chegar às conversações de Viena e sem dúvida ajudarão EUA-Turquia a expandir suas operações no norte da Síria.


E por mais que sugestões de que o 'ocidente' teria qualquer conexão com os ataques em Paris possam ser descartadas como "teoria conspiracionais" (apesar das evidências que surgem e mostram que agências de segurança francesas e outras agências 'ocidentais' e organizações policiais conheciam os atacantes antes mesmo que atacassem), fato é que EUA e Turquia estão tentando 'securitizar' a fronteira entre Turquia e Síria, mas avançando de dentro do território sírio, não de dentro do próprio território da OTAN – e esse movimento revela, afinal, a verdadeira natureza do conflito em curso.


Em matéria da Reuters, "U.S., Turkey working to finish shutting northern Syria border: Kerry" [EUA, Turquia trabalhando para acabar de fechar a fronteira norte da Síria: Kerry], lê-se:


O secretário de Estado dos EUA John Kerry disse na 3ª-feira que os EUA iniciaram operação com a Turquia para acabar de securitizar [orig. finish securing] a fronteira norte da Síria, área na qual militantes do Estado Islâmico têm usado como rota lucrativa de contrabando.


A Reuters diz também (destaques meus):

As áreas onde ocorrerão as operação são hoje controladas pelos islamistas radicais. EUA e Turquia esperam que, varrendo o Estado Islâmico, frequentemente chamado Daesh, para fora daquela zona de fronteira, poderão privá-lo de uma rota clandestina pela qual circulam recrutas estrangeiros, e dos lucros auferidos por comércio ilegal.


Nos termos de um plano conjunto longamente amadurecido entre EUA e Turquia, rebeldes sírios moderados treinados pelo exército dos EUA deverão dar combate ao Estado Islâmico em solo e ajudar a coordenar ataques aéreos a serem disparados pela coalizão liderada pelos EUA a partir de bases aéreas turcas, segundo a estratégia traçada por Washington e Ankara.


Diplomatas familiares com esses planos disseram que, cortar uma das linhas de suprimento do Estado Islâmico pode mudar todo o jogo naquele setor da complexa guerra na Síria. O núcleo dos rebeldes, que não serão mais de 60, estará altamente equipado e com capacidade para requerer apoio aéreo próximo quando necessário – dizem.


Sim, mas... "linhas de suprimento para o Estado Islâmico"... que partem de onde? Eis a questão jamais esclarecida – sequer proposta – na matéria da Reuters nem nos 'informes' de Kerry nem em nenhuma das 'declarações' de políticos 'ocidentais', autoridades ou 'especialistas', nunca, desde o início do conflito na Síria, em 2011.


Ninguém pergunta, mas a resposta é óbvia. Todas as linhas de 'suprimento' para o Estado Islâmico partem de território turco, em direção à Síria. 


Basta examinar qualquer mapa do conflito, para ver que absolutamente não se trata de "guerra civil". Está em curso uma invasão à Síria, que se inicia em território da OTAN.


Parar o ISIS na fonte: na Turquia, no Golfo e na própria OTAN


Todos os atacantes de Paris, do mesmo modo, também passaram pela Turquia na viagem que fizeram para receber treinamento, para receberem armas e para lutarem na Síria e depois – sempre passando pela Turquia –, de volta à Europa. As toneladas de armas e centenas de terroristas combatentes embarcados clandestinamente para a Síria pelos EUA a partir de Benghazi, capital do terrorismo em território líbio, também chegavam, primeiro, em território turco antes de prosseguir viagem, aparentemente com conhecimento e cooperação do governo turco.


Tudo isso para dizer que, quem queira realmente cortar "linhas de suprimento" para o ISIS tem de começar a cortá-las dentro da Turquia, de onde saem toneladas de armas e suprimentos e onde milhares de terroristas fazem estágios, são treinados e por onde sempre passam, a caminho da Síria. 


Mas qualquer ação que Rússia, Síria ou Irã empreendam para interditar essas linhas de suprimento que atendem os terroristas a partir de território da OTAN será considerada ato de guerra. 


A própria OTAN não ter bloqueado, ela mesma, em seu território, essas mesmas linhas de suprimento para terroristas já ativas há anos, durante toda essa terrível guerra contra a Síria, isso sim, caracteriza campanha concertada, intencional, de terrorismo patrocinado por um estado.


Também se pode dizer que, além da Turquia, em menor extensão também a Jordânia, ao sul da Síria, e as ditaduras do Golfo Persa, Arábia Saudita e Qatar, também são "fontes" de suprimento do ISIS e de outros grupos terroristas ativos dentro da Síria. 


Ao invés de pressionar esses regimes ou de sancioná-los, e já nem se fala de conduzir operações de guerra dentro dessas fronteiras com o objetivo de alimentar a maré de dinheiro e armas que flui para o ISIS e outros grupos terroristas na Síria e Iraque, o 'ocidente', inclusive os próprios EUA e França, assinaram lucrativos negócios de armas, no valor de bilhões de dólares.


A Arábia Saudita recebeu munição dos EUA para continuar sua tão pouco noticiada guerra no Iêmen, na qual soldados sauditas lutam ombro a ombro com terroristas da Al Qaeda e do ISIS os quais parecer ter função apenas auxiliar – para ocupar territórios que as tropas sauditas e dos Emirados Árabes Unidos pesadamente mecanizadas vão esvaziando de quaisquer populações.


Combater contra o ISIS na própria verdadeira fonte que o alimenta implicaria, para o 'ocidente', pôr a faca no próprio pescoço. O 'ocidente' é claramente responsável pelo surgimento e perpetuação desse grupo terrorista – não como simples consequência da ação do 'ocidente', mas – como resultado de esforço intencional, concertado, planejado, para criar um formidável exército à distância, para guerrear 'por procuração' as guerras do 'ocidente' no Oriente Médio e no Norte da África.


Para os 'ocidentais' que ainda se perguntem por que, apesar de tantos ataques nos EUA e na Europa, e tantas campanhas tão caras para supostamente erradicar os sempre mesmos terroristas que atacam onde bem entendam, o ISIS, essa dita "organização terrorista", não apenas sobreviva sempre, como cresça e prospere sem parar, a resposta é simples: o 'ocidente' jamais se empenhou em pôr fim àqueles terroristas.


E o ISIS não está proposto só para dividir e destruir Síria e Iraque. Se o 'ocidente' sair vitorioso na Síria, a organização terrorista então se mudará para o Irã, para a região do Cáucaso e sul da Rússia, e depois para a Ásia Central. 


O ISIS é o exército para guerras longe de casa que EUA e Arábia Saudita organizaram a partir da Al-Qaeda iniciada nos anos 1980s, a qual por sua vez não passava de continuação do que o Império Britânico já fazia: usar fanáticos wahabbistas para derrubar seus rivais otomanos, há um século.


Quando o 'ocidente' fala de "guerra longa", sabe bem do que fala. E será longa, interminável, até que o povo em todo o ocidente afinal se aperceba de que seus governos supostos democráticos não estão fazendo qualquer "Guerra ao Terror": estão fazendo uma "Guerra de Terror" que se espalha pelo planeta.

Tony Cartalucci